Cultivar peixe: bom para o produtor e bom para o planeta

  • por: Editor
  • [28.09.2011]
  • Categoria:
Depoimentos

Como começou o programa?

A gente começou dentro da nova missão institucional de Itaipu, a partir do gerenciamento estratégico e da preocupação social e ambiental, buscando um relacionamento afinado entre com a vizinhança e, principalmente, a inclusão social. Então, a mim coube a missão de tentar estabelecer uma relação organizada com alguns setores que estavam bem distantes da empresa, como no caso dos pescadores artesanais, que são aqueles que vivem da pesca, dependem dela para sobreviver. São sete colônias no reservatório, com mais de 800 famílias, além das comunidades indígenas que estão na beira do lago e que vêem na pesca e na piscicultura uma alternativa, e também os assentados e ribeirinhos, que tinham essa reivindicação de querer utilizar as águas do reservatório para complementar a renda deles. Já tínhamos alguns experimentos para implantar o processo de cultivo de peixes no reservatório, em substituição à pesca extrativista. A estatística pesqueira estava mostrando uma redução da pesca extrativa. Foi a partir daí que a gente pensou e começou a discutir juntos, tanto no comitê coletivo quanto nas relações individuais que a gente teve naquele momento de diagnóstico, que o mais adequado seria implantar um processo de piscicultura.

 

E qual foi o resultado dessas discussões?
A partir daí nós começamos a estudar o reservatório, fazer um plano diretor, ver onde dava para criar peixe, onde não dava... Fizemos todo o zoneamento para não conflitar com outros interesses que já estão no lago, como navegação, praia, extração de areia, pesca esportiva, a própria pesca artesanal. E a partir daí encaminhamos todo um processo de autorização legal e licenciamento junto ao Ministério da Pesca e o programa avançou bastante nesse ponto. Entramos num processo experimental de cultivo, para depois passar para um processo de produção mais definitiva, e foi uma experiência muito boa. Hoje, já demos passos importantes no processo de piscicultura: temos três parques aquiqueras demarcados, o reservatório está todo demarcado, a gente sabe onde pode e onde não pode cultivar peixe e quanto pode cultivar em cada local. E nós temos já 72 produtores com títulos de uso, autorizados e plenamente legalizados para produzir. Então, isso foi um salto importante graças ao Cultivando Água Boa.

 

Qual a importância do projeto dentro do Cultivando Água Boa?
O peixe bom, tanto cultivado quanto pescado, tem que ter um ambiente bom. E o peixe é o melhor indicador que tem para a água. Onde a água é ruim, não tem peixe bom. E onde dá peixe bom é sinal de que o ambiente está conservado. Então, é um marcador importante a presença de peixe. Uma coisa depende da outra. E toda a política que foi feita de preservação de toda a bacia, recuperação dos passivos é um resultado que vai beneficiar, diretamente, a pesca e a piscicultura, porque os peixes respiram a água e a água sendo boa, é melhor para o peixe. Água suja, água ruim, não dá para criar peixe e também não tem peixe na natureza.

 

Quando vocês começaram esse trabalho, como era a receptividade?
No começo era conflituosa. Existiam muitas práticas dos pescadores que eram teoricamente agressivas à natureza, à faixa de proteção e ao próprio ambiente aquático. Então, antes, havia uma relação de notificar e limitar. Aí foi criada uma nova relação, uma relação de diálogo, para corrigir e para ajudar um ao outro, de uma forma mais fraternal. E isso foi muito positivo, porque hoje nós vivemos em perfeito diálogo. Não que esteja tudo afinado, porque os interesses não foram todos atendidos da parte deles e nem do nosso, mas existe uma evolução muito grande nessa relação. Hoje, existe uma relação de sintonia muito forte, entre as ações e as aspirações dos pescadores e dos produtores de peixes, com relação também ao que Itaipu aspira e tem como horizonte para essa atividade.

 

E o quê você percebe de mudanças para eles, os pescadores?
Tem muitas mudanças que a gente percebe. Eles melhoraram de vida. Mudou também a consciência ambiental. Por exemplo, nós temos alguns produtores de peixes que são também pescadores, e que hoje se convenceram. Não precisou que nós falássemos para eles que não vale mais a pena pescar, extrair da natureza. Eles se convenceram de que o caminho é produzir e vender peixe produzido e não o pescado. Porque isso é bom pra ele e para a natureza. Essa é a fórmula para fazer com que haja menos pressão em cima do meio ambiente. E o consumidor também vai passar a exigir peixe cultivado. Senão, vai ter sempre aquela pressão de passar a linha amarela e querer comer peixe da natureza, e a natureza demora para produzir um extrato pesqueiro. Os peixes de grande porte que nós temos aqui na região crescem um quilo por ano. Por isso, se você matar um peixe de 20 quilos, é sinal de que ele demorou 20 anos para ficar daquele tamanho. E não dá para você matar um peixe que está pesando um ou dois quilos, como costumeiramente ocorre, porque aí vai terminar a espécie, ela será extinta. Então, há uma necessidade produzir alimento protéico como é o peixe e não dá mais pra ficar só desmatando para produzir carne de boi, de porco, de frango. O planeta já não comporta mais. Então, nós temos o latifúndio aquático, que dá para aproveitar sem cortar uma árvore, desde que seja manejado corretamente, bem estudado e bem demarcado. Daí, é possível produzir uma enormidade de proteína boa como é o peixe, sem estabelecer prejuízo à biodiversidade íctica e também ao planeta.

 

O consumidor nota a diferença para o peixe produzido?
Tem algumas diferenças. Por exemplo, havia uma dificuldade para colocar o peixe na merenda escolar, porque o peixe tem espinho e criança não pode receber um prato com espinho de peixe. Então nós avançamos nisso, com uma máquina que tira os espinhos da carne do peixe. E aí dá para produzir vários pratos a base de peixe para as crianças. Outro ponto é que, quando você aumenta a oferta de peixe, automaticamente, o custo para o consumidor diminui. O consumidor nosso está consumindo peixe que vem do Peru, do Chile. O salmão, peixe de água salgada, por exemplo, não está ao alcance das populações menos remuneradas. E os peixes que estão sendo produzidos aqui, os nossos produtores estão vendendo. Por exemplo, o Pacu está sendo vendido a R$ 4,50 o quilo, nas feiras municipais. Nenhum peixe que vem de fora está nesse preço. Porém, nós ainda temos que evoluir bastante na organização de toda a cadeia da piscicultura. Não temos as redes de frigoríficos nem as fábricas de ração, por exemplo. O acesso ao crédito também não está resolvido para produzir, porque para produzir não é assim tão barato. Mas é uma luta que nós estamos travando para resolver esses pontos e tornar sustentável essa cadeia da piscicultura aqui na nossa Bacia do Paraná 3.
 

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