07.06.2011
Ruud Lubbers: “A Rio+20 é o fim do começo”
Em visita ao Brasil para conhecer os preparativos da Conferência Rio+20 junto à Prefeitura do Rio de Janeiro e também para ver de perto as ações do programa Cultivando Água Boa, da Itaipu Binacional, Rudolphus Lubbers fez nesta segunda-feira (6), uma palestra sobre as perspectivas para o maior evento mundial em meio ambiente desde a Eco92.
A palestra fez parte da temporada 2011 dos Diálogos de Fronteira, realizados em parceria com a Unila e a FPTI, e contou com a participação da diretora da Carta da Terra, Mirian Vilela, e do diretor de Coordenação e Meio Ambiente da Itaipu, Nelton Friedrich.
Integrante da Comissão da Carta da Terra, Lubbers é hoje uma das principais figuras no âmbito das Nações Unidas no campo socioambiental. Ex-primeiro ministro da Holanda, ex-professor das universidades de Tilburg (Holanda) e Harvard (EUA), ele vê a Conferência como o coroamento de um processo que teve início no pós-guerra, com a formulação da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Na opinião de Lubbers, a Rio+20 tem grande potencial para encerrar com avanços concretos na implementação de políticas e de práticas da chamada Economia Verde, ou de uma “bioeconomia”. A Economia Verde, a propósito, será um dos temas centrais da conferência.
Rudolphus Lubbers traço um panorama da questão socioambiental desde a Segunda Grande Guerra, passando pela Rio 92 e chegando aos dias de hoje. Em 92, disse, havia um clima de esperança com o final da Guerra Fria, que representou uma vitória da economia de mercado sobre o Comunismo no confronto de ideologias que havia até então.
“E muitos chefes de estado acreditavam que a economia de mercado seria capaz de resolver os problemas do mundo. Mas já naquela época, as lideranças dos povos indígenas, ONGs e representantes da sociedade civil alertavam que tão importante quanto a economia de mercado era a necessidade de um novo marco ético para a civilização”.
Essa discussão, continuou Lubbers, levou à criação da Carta da Terra, um documento que trata não apenas de Ecologia, mas também da erradicação da pobreza, da não-discriminação e da justiça social. Outros documentos planetários, como as Metas do Milênio, também foram concebidos com esse espírito.
Lubbers também discorreu sobre as conclusões de um estudo comparativos entre a Carta da Terra e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. “São praticamente cinco diferenças. Em 1948, o homem estava se libertando do colonialismo. Logo, era uma declaração de independência. Já a Carta da Terra é uma declaração de interdependência, entre as pessoas e das pessoas com a natureza. Em segundo, a Carta nos deu uma visão de responsabilidade com as gerações futuras e não apenas com as pessoas de hoje, como a Declaração.”
E prosseguiu: “A Carta preconiza o respeito à diversidade de culturas e de países. Enquanto a Declaração foi concebida em um contexto de superpotências, hoje temos um mundo multipolar. Em 1948, enfatizava-se o papel dos governos. Atualmente, a responsabilidade é mais ampla, é socioambiental, e é compartilhada com todos os atores sociais. E, por fim, a quinta diferença é que em 48 acreditava-se que a tecnologia e a democracia seriam capazes de salvar o mundo, mas hoje é necessário ir além e considerar também a questão espiritual e uma nova ética para a sobrevivência da civilização humana”.
Agora, a temática do momento nessa ampla discussão sobre os rumos da civilização é a Economia Verde. Segundo Lubbers, a Economia Verde tem duas grandes virtudes: leva em conta as mudanças climáticas e pressupõe criar condições para que as gerações futuras também possam se desenvolver, como já preconizava Maurice Strong, em seu livro Nosso Futuro Comum.
“As discussões sobre Economia Verde vêm avançando muito na Europa, tendo em vista a necessidade do Velho Continente resolver uma dupla crise: a ambiental e a econômica. Então, a Economia Verde surge como uma solução conjunta para essas crises, por meio da criação de ‘empregos verdes’, com o desenvolvimento de energias renováveis, de indústrias recicladoras, da fabricação de biomaterias e muitos outros campos ‘bio’”.
Lubbers encerrou sua palestra com o exemplo de Itaipu que, segundo ele, é uma referência sobre o que se pode fazer para transformar o modelo econômico atual em “verde”. “Quando o projeto foi concebido havia essa preocupação em gerar uma grande quantidade de energia, mas com o tempo a empresa incorporou o cuidado com o meio ambiente e com as pessoas, e outros valores da Carta da Terra à sua missão institucional, demonstrando que é possível compatibilizar desenvolvimento com responsabilidade socioambiental”.
E concluiu: “Esta é a terceira vez que venho ao Brasil. A primeira foi nos anos 1970. Agora, vejo uma grande diferença no entusiasmo das pessoas no sentido de colocar em prática a sustentabilidade”.




